Ser Igreja fora do templo

Ser Igreja fora do templo

Neste breve ensaio queremos apresentar a experiência da Igreja Batista de Água Branca (Ibab), na capital de São Paulo, Brasil, que, durante a pandemia, adotou o lema: “ser igreja fora do templo”. A Ibab possui uma congregação que ultrapassa 5.000 membros arrolados, mas é impossível mensurar o alcance global das ações desta comunidade. Seu canal no YouTube possui cerca de 210 mil assinantes e registra mais de 25 mil acessos para acompanhamento das celebrações transmitidas aos domingos. 

Desde o início dos anos 1990, quando a liderança redirecionou sua ênfase para o evangelho puro e simples dos discípulos de Jesus Cristo, a comunidade passou a dedicar-se mais à Missão e à organicidade do Corpo de Cristo, enquanto progressivamente se desapegava do institucionalismo religioso. Com isso, tornou-se uma referência e tem abençoado centenas de milhares de pessoas em todo o globo.

A equipe ministerial, liderada pelo pastor Ed René Kivitz, é composta pelos pastores e pastoras: Eduardo Fetterman (Adolescentes), Filipe dos Anjos (Adulto e Cidade), Claudio Manhães (Pastoral), André Saldiba (Famílias e Juventude), Robinson Jacintho (Pequenos Grupos e Educação), Paulo César Baruk (Celebração), Sílvia Kivitz (Missão e Rede Ibab Solidária) e Fernanda Kivitz (Crianças). Diferentes vozes nesta equipe contribuíram neste relato.

Quando a pandemia começou, a Ibab foi uma das primeiras comunidades a anunciar publicamente a suspensão de seus cultos presenciais, enquanto muitas lideranças, incrédulas sobre o potencial devastador da pandemia, demoraram tempo demais para tomar a mesma decisão. Para a liderança da Ibab, o fator decisivo era proteger a vida das pessoas, considerando o alto potencial de contaminação na interação entre as crianças (transmissoras inevitáveis) e os idosos (grupo de risco), avós destas mesmas crianças. A congregação de crianças que se reunia dominicalmente na Ibab passava de mil integrantes.

A Ibab já era uma comunidade muito representativa nas redes sociais. A pandemia acentuou esta representatividade, mas a adoração comunitária foi sensivelmente transformada. Eduardo Fetterman, que também atua na equipe de adoração, disse que a Ibab investiu em mais equipamentos para que as transmissões tivessem a maior qualidade possível e ressaltou o sofrimento que muitas comunidades experimentam justamente por não possuírem tais recursos para investir numa estrutura semelhante em tempos de distanciamento social. A adoração teve sua equipe presencial reduzida, gravando os cânticos previamente enquanto a pregação é transmitida em tempo real. 

Nos pequenos grupos a dinâmica foi de fortalecimento da comunhão, ainda que virtualmente. A maioria dos voluntários nos diversos ministérios continua sem oportunidade de serviço presencial. Embora os encontros virtuais estejam preservando as conexões, como os adolescentes são muito relacionais, às vezes desanimam pela falta de convivência com sua turma. Por isso os encontros semanais foram adaptados para rodas de conversa possibilitando maior interação.

Ainda na dinâmica da adoração comunitária, Fernanda Kivitz reporta que “a pandemia nos colocou diante do desafio de viver, de fato, a experiência de ser igreja para além de frequentar a igreja/instituição”.  No ministério infantil focamos na “possibilidade de ser igreja em família”.  Enquanto as famílias iam à igreja, cada pessoa vivia uma experiência singular que não era, necessariamente, compartilhada com os demais. Compreendendo que os pais são os principais mediadores das experiências espirituais das crianças, a vivência de ser igreja em família foi estimulada. Um ponto positivo foi este “resgate da experiência familiar ao redor da Bíblia, propondo conversas significativas em casa”. 

A Ibab é reconhecida como uma igreja muito comprometida com a Missão e com sua inserção social. A igreja apoia 52 organizações e projetos sócio-missionários de cuidado humano por meio da Rede Ibab Solidária. Neste ano pandêmico a liderança apelou à generosidade da comunidade, pois neste momento de crise o sofrimento humano e as necessidades aumentaram, além das incertezas no cenário econômico. Durante a pandemia, a comunidade não apenas amadureceu, como mobilizou-se ainda mais em ações de misericórdia, compaixão e justiça, respondendo à crise global de maneira positiva e inspiradora. 

A maior prova desta resposta aconteceu em dezembro de 2020, quando a comunidade vivenciou algo inédito na sua história de generosidade. As campanhas de natal, que acontecem há 19 anos sempre foram muito desafiadoras. O alvo de 2020 era maior que os anteriores. A comunidade ultrapassou em 120% a meta estabelecida marcando a vida de cada membro de modo singular. 

A atenção da comunidade também se dirige às necessidades de seus membros. Além da assistência social prestada às famílias mais carentes, a Rede Ibab Solidária promoveu mentoria e seminários para os pequenos empreendedores. Grandes empreendedores consolidados no mundo corporativo vieram auxiliar os pequenos empreendedores que precisaram reinventar suas atividades profissionais devido ao colapso na economia e no mundo do trabalho.  O olhar de equidade sobre as necessidades humanas dentro e fora da comunidade é parte da identidade da Ibab.

Na visão de Eduardo Fetterman, a comunidade se fez mais presente no Brasil como um todo, não apenas oferecendo conteúdos de qualidade, como alcançando mais pessoas com o evangelho. Em parcerias com organizações como a UNICEF e a Visão Mundial, liderou ações de misericórdia em muitos níveis, inclusive comprando e enviando 1000 cilindros de oxigênio para Manaus, socorrendo a cidade na maior crise da segunda onda do COVID-19, em Janeiro de 2021. Algumas ações de misericórdia foram interrompidas, como o apoio educacional presencial que os adolescentes prestavam às pessoas com limitações cognitivas e aos imigrantes bolivianos, mas outras oportunidades surgiram.

Fernanda Kivitz acrescenta: “vejo uma comunidade pronta para servir, para doar e se doar, pronta para o trabalho. Temos sede de gente, de encontro, de conexão, e pessoas precisam de pessoas. A pandemia e o distanciamento social escancararam as desigualdades que vivemos e isso gera dor, angústia e revolta, mas as pessoas estão com vontade de fazer algo relevante, útil e transformador”. Uma das mudanças mais significativas no evangelismo e discipulado foi a consciência de que que a igreja é parceira das famílias no discipulado das crianças, mas que os pais e cuidadores das crianças compõem o núcleo central das experiências espirituais dos pequeninos. Com isso, as crianças passaram a ter experiências com Jesus na vivência de suas famílias e não mais sob a tutoria dos professores do ministério infantil. A igreja não é responsável pela jornada espiritual de uma criança, mas sim uma facilitadora deste processo junto à família. 

Outros ministérios também ligados ao discipulado fizeram sensíveis adaptações na sua atuação. No ministério pastoral, sob a liderança do pastor Claudio Manhães, houve a criação de uma capelania para apoio psicológico durante a quarentena.  Uma equipe de psicólogos e psicólogas da igreja passou a ofertar seu tempo para atendimentos virtuais voluntários às pessoas necessitadas deste tipo de suporte, atendendo também aos profissionais da saúde que, estando no front do combate ao COVID-19, se encontravam em burnout. Também atrelado ao ministério pastoral, a Ibab sedia a coordenação do Celebrando a Recuperação no Brasil. O programa, essencialmente presencial, adaptou-se ao funcionamento virtual nos encontros pequenos e grandes grupos. 

“#tododiameiodia” tornou-se o ponto de encontro da comunidade para a oração, preservando sua identidade, suas tradições e sua fé nos caminhos da sua dispersão à semelhança dos hebreus e dos primeiros cristãos, iniciativa liderada pelo pastor André Saldiba.

Antes mesmo da pandemia o ministério Ibab Educação já se estruturava para oferecer uma educação cristã de alta qualidade em plataformas de Ensino a Distância, alcançando, principalmente, a multidão de pessoas que se sentem participantes da Ibab, mas estão geograficamente distantes. A pandemia acelerou este processo e atualmente o ministério oferta uma rede de cursos de curta duração para o período de férias e o curso mais extenso sobre Espiritualidade Cristã.

A Ibab é uma das raras igrejas no Brasil que há vários anos dedica-se à discussões raciais e de gênero. Contrastando com o quadro de aumento da violência doméstica durante a pandemia, o Ministério dos Homens promoveu simpósios e estudos nos pequenos grupos de combate à violência de gênero. Particularmente atuei como conferencista no capítulo sobre Jesus e a Masculinidade Não-Violenta, sendo este apenas um das várias iniciativas.

O Fórum de Consciência Negra da Ibab é uma iniciativa permanente criada a partir da necessidade de dialogar sobre o racismo estrutural e sistêmico bem como combate-lo. Durante a pandemia este fórum intensificou suas ações concretas na busca de equidade, acolhimento, reconciliação, resgate da dignidade e promoção da justiça, especialmente após o assassinato de George Floyd.

Muitas comunidades experimentaram uma grande desconexão entre seus membros durante a pandemia. Testemunhamos vários líderes amedrontados com a dispersão dos membros e com o colapso financeiro. “Ser Igreja fora do templo” nos apresentou mais profundamente este Deus que é dono de todos os recursos. Do meio do deserto, floresceu a criatividade e os recursos surgiram quando as necessidades humanas foram priorizadas. Mesmo quando a liderança orientava: “cuide financeiramente primeiro dos seus familiares” os membros continuavam contribuindo financeiramente. Quem podia, contribuía mais para auxiliar os que necessitavam. Na data mais importante da vida da comunidade a generosidade sobrepujou de modo exuberante.

Nas palavras do pastor sênior, Ed René Kivitz, “a experiência da Ibab na pandemia tem sido a de aprofundar e estender a práxis de sua visão, missão e filosofia de ministério. Em sua Visão a Ibab declara que deseja “ser um sinal histórico do reino de Deus”, protagonizando em sua vivência comunitária os mesmos frutos do ministério de Jesus: libertação, salvação, reconciliação, restauração da pessoa humana em todas as suas relações. Inspirada no movimento de Lausanne e da Teologia da Missão Integral, sua declaração de Missão diz que é uma igreja comprometida a “levar o evangelho todo para o homem todo”, e atua orientada por sua filosofia de ministério definida como “priorizar relacionamentos, envolvendo todos os seus frequentadores além dos limites culto-clero-domingo-templo”, isto é, uma igreja que acontece privilegiadamente numa grande rede de relacionamentos, diaconia e testemunho integral do Evangelho. Os tempos pandêmicos não provocaram muitas mudanças na dinâmica cotidiana da Ibab, mas exigiram um compromisso de fidelidade ainda mais sacrificial com tudo quanto tem vivido em sua história recente, à luz do discernimento que tem recebido do Evangelho, especialmente conforme a reflexão teológica própria da América Latina”.

Que este exemplo nos inspire a observarmos o crescimento das oportunidades de serviço que a pandemia nos trouxe, elas cresceram na proporção que cresceram as necessidades humanas. Que a pandemia ensine a toda a família batista ao redor do mundo que é tempo de servir com criatividade.

Igreja Batista de Água Branca na web:

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Teologia e pandemia em tempos de crise

Teologia e pandemia em tempos de crise

Diante da pandemia que assola o mundo hoje, surgem perguntas difíceis. Será que é ação diabólica? O vírus tem origem no mal? Talvez seja apenas obra humana, como pensa a maioria. Para outros, porém, parece apenas “mero acaso”. Creio que nenhuma dessas respostas pode explicar a pandemia que assola o planeta. Nesse cenário vale a pena consultar a sabedoria bíblica. Tenho certeza que iremos aprender muito com os antigos profetas bíblicos. 

Entre os profetas de Israel e de Judá, acha-se o breve livro de Naum. Na abertura de sua profecia (1.3), lemos o texto “O SENHOR tem o seu caminho no vendaval e na tempestade, e as nuvens são a poeira dos seus pés”. Essas palavras ecoam desde o juízo divino que caiu sobre Nínive, no século 7 a.C. E elas nos falam de modo particular nestes dias difíceis de crise .  

Nem todos percebem que a perspectiva dos profetas de Israel contrasta com a visão do homem contemporâneo, secularizado e humanista. A antiguidade dos tempos bíblicos, como qualquer época da história, estava acostumada a catástrofes de todo tipo, inclusive pestes e desastres naturais. Nesse contexto imprevisível, a revelação bíblica se mostrava distinta da visão de mundo naturalista do paganismo do antigo Crescente Fértil.  No paganismo de Canaã a natureza era divinizada. Já no Israel bíblico, o Eterno tudo domina e transcende o mundo. Apesar desse contraste, nos tempos bíblicos ninguém imaginava que o mundo estava sob o poder humano e que as coisas deveriam prosseguir o curso esperado pela razão que “entende as leis do universo”, capaz de dominá-lo com maestria. Esse foco antropocêntrico surge no racionalismo e iluminismo recentes. Os antigos iriam se sentir mais à vontade com algumas ideias de pensadores recentes como Kierkegaard, Heidegger e até Sartre. Eles compreenderiam a tremenda limitação do ser humano, sua impotência diante do mundo “estranho” que os cerca. Conscientes da realidade, os pagãos temiam os desastres naturais, atribuídos a divindades específicas. Baal e Astarote dominavam a fé na cultura cananita. Os homens se imaginavam à mercê dos deuses, que poderiam atingi-los a qualquer momento.  

Nesse ambiente, o pensamento bíblico rejeitou a idolatria pagã e destacou o Eterno como verdadeiro e único Deus. Os deuses pagãos eram mera imaginação dos povos. Apesar disso, o homem bíblico nunca atribuiu a elementos não divinos a origem dos fenômenos. Uma leitura atenta do Salmo 29, por exemplo, revelará a apologética contra o baalismo e a ênfase de que o SENHOR é o verdadeiro Deus que domina as tempestades. Pode se constatar que “a voz do SENHOR” do Salmo 29 é o trovão que estronda. De modo geral, na Bíblia, o sofrimento que nos atinge tem origem no próprio Deus e não em outra fonte. De igual modo, no livro de Rute, o sofrimento geral (fome) e, também, a dor específica (de Noemi) vêm do próprio SENHOR. 

Uma perspectiva teísta da realidade não apresenta alternativa. É impossível imaginar que um desastre natural, como epidemias ou terremotos não tenham a ver com o próprio Deus. A natureza não opera independentemente da ação divina. A ideia equivocada de que os homens podem exigir do Criador e que Deus deve ser culpado pela dor que lhes é causada marca a revolta dos ateus e agnósticos que veem a vida “debaixo do sol”, na linguagem do Eclesiastes. Por isso, em última instância, com as Escrituras, afirmamos que o Deus soberano tem o controle de tudo é o “responsável” pelos desastres naturais, pois tudo vem de Deus.  

Se pudéssemos conversar com o homem bíblico do Israel antigo, talvez não fosse tão difícil entender o seu raciocínio. Ele saberia, por exemplo, que Deus tinha sido responsável de modo direto por intervenções meteorológicas que causaram muitas mortes, como foi o caso do Dilúvio e da abertura do mar Vermelho. Além disso, ele entenderia facilmente também que Deus é quem tira a vida de todos os que falecem (Dt 32.39 – “eu mato, e eu faço viver”). O SENHOR dá a vida e a tira. Em certas ocasiões, ele convoca algumas de suas criaturas um pouco antes do momento por elas esperado. O homem que mata é assassino, pois não tem o direito de tirar aquilo que nunca concedeu. Mas este não é o caso do soberano Deus. Por isso, nossos avós gostavam de dizer que um falecido havia sido “recolhido”. O homem bíblico também costumava entender que tais atos divinos poderiam ser um lembrete ao ser humano de sua fragilidade e de sua pecaminosidade. A leitura do livro de Salmos revela isso com frequência (veja os salmos 30 e 130. A relação sofrimento e pecado associada à fragilidade era comum. A literatura bíblica até cunhou o termo ’enosh para falar do homem como frágil. O termo distingue-se de ’ish e de ’adam, e define o homem em sua distinção com relação ao divino. 

Por isso, se o homem bíblico visse nossa sociedade perversa e distante de Deus, com todas as nossas mazelas contemporâneas, ele consideraria a possibilidade de uma intervenção divina em nosso tempo para refrear os desmandos humanos na Terra. E, diante da escatologia neotestamentária (Mt 24, Lc 21) seria esperável até enfrentar desastres, inclusive epidemias.  

Todavia, o mais surpreendente é que, numa perspectiva dialética, os textos bíblicos ao mesmo tempo nos ensinam a sentir profundamente o sofrimento e a chorar em meio à tribulação com toda a dor. O homem bíblico lidava com a realidade de que o Deus soberano, com o direito de julgar, tem, ao mesmo tempo, amor por suas criaturas e sofre com elas e por elas, por causa de sua misericórdia. Na verdade, o israelita antigo talvez até pudesse fazer uma outra pergunta: Por que, diante de tanta injustiça, o Deus onipotente e justo não executa o seu juízo sempre? Por causa da sua misericórdia!  É muito possível que no profundo do coração ele se consolasse com as palavras do salmista: “a misericórdia do SENHOR dura para sempre” (Sl 136). Que bom! É um consolo! É confortante! Parece que Deus resolveu esperar um pouco mais! Diante dessa interrupção de rotina, muitas vezes egocêntrica, irrefletida e irresponsável, creio que ainda há chance de arrependimento e retorno ao Senhor de toda sabedoria e soberania diante da panpidemia! Afinal, Deus usa aquilo que nos parece mal e dolorido, aquilo que chega como tempestade e vendaval, para fins bons, para a sua glória.  

Quando chegamos ao Novo Testamento e vemos o ensino de Jesus no Sermão do Monte, encontramos diretrizes importantes para como deve funcionar essa misericórdia divina na vida dos que estão em aliança com o Senhor. A missão envolve a proclamação da verdade, do juízo, e também do perdão, da salvação, da misericórdia divina manifesta de modo concreto. 

Jesus vai falar dos que têm “fome e sede de justiça” (Mt 5.6). Quando se entende o contexto, vê-se que a palavra justiça envolvia três aspectos: legal, moral e social. O sentido moral tinha a ver com o conformar-se à lei divina, não transgredir, por exemplo, os dez mandamentos. Essa dimensão moral estava ligada à esfera legal da sociedade, ou seja, a ética social adequada, de origem mosaica. Por isso, Mateus traz cinco grandes discursos para nos lembrar dos cinco livros da Torá, e as bem-aventuranças são como as palavras da Torá ditas no Monte Sinai. Jesus é uma espécie de novo Moisés. Por isso, o aspecto legal e moral, essa justiça, é tão valioso. Mas, essa justiça se desdobrava em misericórdia e acolhimento também. Por isso, diferente do mundo antigo, os textos do Israel antigo eram únicos em se preocupar com viúvas, órfãos, pobres e necessitados, com enfoque peculiar de uma justiça de Deus contra a opressão, a maldade, comum nas potências do mundo antigo, como o Egito, a Babilônia e o mundo romano, da época de Jesus onde 60% da população era escrava. Assim, há necessidade de justiça no mundo. Justiça por causa da maldade e opressão. Justiça para que a maneira como se organiza a sociedade submeta-se aos mandamentos de Deus. A Torá tem 613 mandamentos. Os 10 mandamentos resumem a Lei, e Jesus vai dizer que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo resume a essência de todos esses mandamentos. Em função dessa perspectiva, qual é a grande dimensão que envolve a pessoa que passa a seguir a Jesus? Elas vivem isso na prática. 

Os bem-aventurados são pessoas que, em vez de terem sede de poder, de sonharem que serão famosas, de desejarem o que os gentios querem, essas pessoas não aceitam ver crianças morrendo, revoltam-se quando ouvem falar de crimes horríveis. Elas têm o coração machucado quando veem a desordem e a dor no mundo. Por isso a fome e a sede, o que lhes toma o coração, anseiam o dia em que a justiça vai chegar. É uma santa revolta contra o mal. São pessoas mais tristes, aborrecidas, e são marcadas pelo choro do reino. Possuem uma santa revolta que se traduz numa fome intensa de querer ver justiça na sua própria vida. Elas descobrem que o problema do mundo também está nelas. Sabem como é difícil ter paz quando levamos desvantagem num negócio. Sabem como é difícil perdoar quando somos machucados e ofendidos. E essas pessoas que vão estar alinhadas com o Reino, são pessoas cuja vitória do Reino se dá no seu interior, e elas sonham com o dia quando não mais pecarão contra Deus. Elas sabem que um dia as imperfeições serão vencidas. Sonham com o alvorecer do Reino, quando a justiça será vencedora ao cenário à sua volta e em sua própria vida. 

Jesus fala em misericórdia (v.7). A palavra evoca a graça de Deus. É agir de uma maneira sensível com os mais frágeis. O nosso mundo, a sociedade que funciona como Roma, é o mundo dos vencedores. Qualquer pessoa que tropeçou no caminho, será atropelada e não terá chance. Os antigos germânicos, quando descobriam que seus filhos poderiam ter algum problema, eles os matavam ou os abandonavam. O nosso mundo funciona assim! Se alguém tem dificuldades na vida, a própria sociedade abandona essas pessoas, apontando-lhes culpa. A misericórdia está alinhada com a graça de Deus, com o amor incondicional de Deus. Foi assim que Deus procurou Israel. Foi para fazer aliança, para estabelecer uma relação de parceria por sua própria decisão. Ele enfatiza que a relação com Israel não foi por serem bom povo. Esse mesmo Deus que se manifesta em Cristo Jesus com graça, nos procura, e esse amor de Cristo que nos constrange é a marca da maneira como Deus age. Quando uma pessoa passa a fazer parte do Reino, reconhecendo sua limitação, seu pecado, ela começa a sonhar com a justiça. Essa pessoa atingida pelo Reino recebe a misericórdia de Deus, pois não será punida como deveria. A misericórdia é o contraponto da graça. Graça é receber aquilo que não merecemos, e misericórdia é não receber o que merecemos. Quando esse amor incondicional de Deus nos alcança somos atingidos pela misericórdia de Deus e o nosso coração muda. E quem são os misericordiosos? São aqueles que foram tratados por Deus com tal amor que agora tratam as outras pessoas assim também. É a pessoa que sabe que o “fulano” errou, que sabe que pensando de modo objetivo ele não merece mais nada, mas como Deus o trata de uma maneira tão graciosa, essa pessoa crê numa outra chance para aquele que agora é alvo da misericórdia de Deus. Se excluirmos a misericórdia, o mundo seria destruído. Só existe chance de perdão, de restauração, de reconstrução da realidade por causa da misericórdia e o amor de Deus. Por isso, na hora da dor na pandemia, a igreja deve mostrar essa misericórdia, e não apenas reforçar discursos apocalípticos. Deve fazer “brilhar sua luz diante dos homens com suas obras para que o Pai seja glorificado” (Mt. 5.16) 

Para Reflexão e Discussão

  1. Você já viu um debate teológico sobre o caráter de Deus surgir em sua comunidade durante esta crise? Você experimentou pessoalmente alguma luta teológica?
  2. Como a justiça, misericórdia e graça de Deus se tornaram evidentes em sua vida?
  3. Como podemos demonstrar na prática a misericórdia de Deus neste momento desafiador?
Igreja e Resposta à Crise: Uma História de vitória e adaptação à nova realidade

Igreja e Resposta à Crise: Uma História de vitória e adaptação à nova realidade

A Primeira Igreja Batista de Paranaguá, fundada em 07 de setembro de 1903, é a primeira Igreja Batista do Estado do Paraná, Brasil. Atualmente com 450 membros (370 na sede e 80 nas três congregações), na cidade de Paranaguá, onde temos mais 12 igrejas batistas. É uma igreja de linha contemporânea, buscando o equilíbrio entre a tradição batista e a modernidade, tem um ministério colegiado.

No início de 2020, antes da pandemia chegar ao Brasil, não fazíamos ideia do que estava por vir. Nossos cultos eram transmitidos por celular para Facebook, visando especialmente à comunidade surda, algo bem simples. O culto infantil acontecia simultaneamente com o culto da igreja e durante a semana tínhamos atividades das diversas organizações e ministérios (mulheres, idosos, jovens, surdos, oficina de música e os ensaios dos coros e dos grupos de louvor). Na área financeira estávamos saindo de um processo de crise que abateu as igrejas no Brasil a partir de 2015, derrubando suas entradas em quase vinte por cento.

No mês de março de 2020, em plena campanha para levantamento de fundos para Missões Mundiais, logo após o terceiro domingo, fomos surpreendidos com decretos estadual e municipal, normatizando os cultos e as atividades religiosas. Os templos deveriam permanecer fechados e os cultos deveriam ser apenas online.

A princípio fomos tomados de várias preocupações e indagações, especialmente sobre o que e como fazer doravante. Como já vínhamos conversando acerca da possibilidade de melhorarmos as transmissões online e investirmos em equipamentos e Deus já havia colocado nos corações de dois dos nossos pastores o desejo de ajudar nesta área, pudemos assim, na mesma semana, fazer a primeira reunião de líderes de forma online para discutirmos acerca da questão, surgindo assim dentro do Ministério de Comunicação, o setor do Culto Online.

O Pr. Eugenio Lima (Pastor dos Surdos), trouxe seus próprios equipamentos (computador, câmeras, telas, etc.) para o templo e fizemos um estúdio improvisado. Ele e o Pr. Pedro Francisco Varga (Pastor da Juventude e dos Pequenos Grupos) assumiram a responsabilidade de todas as transmissões e gravações que fossem necessárias. Orientaram a liderança e se colocaram a disposição para que os cultos, reuniões e programas ao vivo pudessem ser transmitidos via Youtube.

No princípio criamos dois programas ao vivo durante a semana (um na terça à tarde e outra na quinta à tarde) visando informar sobre a pandemia e manter a igreja unida e participativa, aproveitando que a maioria dos membros permaneciam em casa em isolamento social imposto. Foram realizadas entrevistas com pessoas da área da saúde, comerciantes, autônomos, profissionais liberais e pastores, etc.

Recebemos uma câmera de presente e adquirimos um novo computador para a transmissão do culto. Porém, como não era câmera adequada para a transmissão resolvemos investir em equipamentos e pedimos orientação técnica à equipe da Primeira Igreja Batista de Curitiba. Foi comprada uma mesa decorte, uma nova câmera e um tripé, além de luzes para a iluminação.

 Ainda estamos aprendendo e treinando novos membros para as equipes de som, multimídia e transmissão do culto.

A Igreja

Na área da adoração, nossa Ministra de Música Marilia Pevidor de Carvalho Cavallari, buscou rever a estrutura dos cultos, a fim de adequá-los ao formato de culto online, ao mesmo tempo em que reduziu, a princípio, a equipe de louvor evitando, assim, aglomeração. Os coros e conjuntos da igreja passaram a realizar ensaios online e a fazer gravações individuais para que depois de mixadas pudessem ser apresentados como vídeos durante os cultos. Com disponibilização de ferramentas gratuitas na internet (Zoom e Meet), pudemos iniciar Culto infantil online, possibilitando assim a interação com as crianças.

O Pr. Robson Mattos, pastor de Crianças, motivou a sua equipe e juntos passaram a realizar o culto infantil online, promover gincanas com os juniores, e visitas às crianças (sem entrar nos lares).

O Ministério da Juventude, dos Surdos e da Terceira Idade buscaram manter a comunhão e as programações usando as mesmas ferramentas, porém, como nem todos possuem internet ou aparelho para acompanhar as programações alguns saíram prejudicados.

O Ministério da Terceira Idade é liderado pela irmã Vânia Kleinhans. Ela conseguiu não apenas motivar os idosos a fazerem uso da internet com também buscou auxílio dos familiares (filhos e netos) dos idosos para assim poder atendê-los.

A comunhão da igreja foi dinamizada com utilização do WhatsApp. No grupo PIB diversos além de proporcionar um espaço para comunicação livre, viva e dinâmica, também utilizamos para gincanas relâmpagos, avisos, divulgação dos aniversariantes do dia, etc. No grupo PIB intercessão somente pedidos de oração e agradecimentos são permitidos e aos finais de cada dia o pastor ora pelos pedidos publicados.

A Escola Bíblica Dominical nos primeiros meses teve as suas atividades interrompidas. Porém, resolvemos aproveitar as terças à tarde, substituindo um dos programas semanais, para fazer a Escola Bíblica Online.

No início do segundo semestre de 2020, com o retorno dos cultos presenciais, ainda que de forma limitada, conforme as normas da Secretaria de Saúde, nos proporcionou possibilidade de fazermos classe única da escola bíblica aos domingos e transmitirmos para os que estão em casa.

O retorno do culto presencial, com apenas um terço da capacidade do santuário, foi recebido com certo cuidado pela maioria dos membros da igreja e ainda hoje, mais de oito meses depois, ainda não ultrapassamos a um público de 95 pessoas.Como dissemos no início, a igreja estava se recuperando de uma crise financeira e achávamos que com o isolamento social as coisas iriam piorar, os dízimos iriam cair, etc. Porém, mais uma vez Deus e a Igreja nos surpreenderam. Em quase todos os meses não apenas alcançamos o orçamento, como também o ultrapassamos. Boa parte dos membros da igreja passou a depositar ou transferir os seus dízimos. Hoje a minoria deposita seus dízimos no gazofilácio e o momento de ofertório, muitas vezes, é para entregar o comprovante de depósito.

A Missão da Igreja

A igreja estava trabalhando para a implantação dos Pequenos Grupos Multiplicadores já a alguns anos. Estávamos com 5 grupos funcionando em 2019, buscando a multiplicação dos grupos em 2020. Este foi o setor mais atingido. A princípio tentamos manter os pequenos grupos na forma online, porém não conseguimos e no final de 2020, somente um grupo ainda estava se reunindo online.

Nossas congregações continuaram seus trabalhos. Elas possuem templos próprios e pastores. A Congregação do Bairro Nova Primavera seria organizada em agosto de 2020, com 60 membros. Infelizmente tivemos que adiar a organização e esperamos que este ano seja possível organiza-la. A Congregação no Bairro Guaraguaçu, foi a que mais sofreu, pois além de possuir poucos membros, a maioria está na terceira idade. A congregação do Bairro Labra, tem tido uma boa frequência e não paralisou suas atividades, graças a operosidade do seu pastor que buscou através de visitas e reuniões com pequenos grupos de jovens, manter viva a chama.

A igreja batizou no ano passado apenas 8 pessoas. Temos programados batismos para este mês.

Como dissemos fomos surpreendidos pela pandemia e pela proibição dos cultos presencias em plena campanha de Missões Mundiais. A princípio pensamos que a campanha seria um fracasso, mas Deus nos surpreendeu e mesmo com o templo fechado, conseguimos, depois de 4 anos sem atingir o alvo, não somente atingir o alvo como também ultrapassa-lo. Assim, também, ocorreu com as demais campanhas.

Vale compartilhar que a criatividade de nossa líder do Conselho de missões, que foi uma peça de suma importância para que alcançássemos o alvo. A Irmã Elaini Lopes de forma criativa envolveu toda a igreja. Ela conseguiu realizar cantinas e bazares em sistema delivres. Foi um sucesso.

Sociedade

Na área social à princípio foi muito difícil o atendimento pelo nosso Ministério de Ação Social, já que a sua líder e boa parte dos seus auxiliares estão na terceira idade ou possuem alguma comorbidade. Mesmo assim,buscamos socorrer especialmente os membros que estavam passando por alguma dificuldade ou desempregado. Ao decorrer do ano buscamos adequar os atendimentos às necessidades e as normas impostas pelo governo, especialmente na distribuição de alimentos.

Procuramos também dar nossa contribuição através da mídia (jornal, Facebook e Whatsapp), buscando conscientizar a população e os membros da igreja sobre a gravidade da situação e muitas vezes acalmando os ânimos dos inconformados. Passamos a escrever quase que diariamente, artigos sobre variados assuntos que estavam ligados à pandemia, buscando reforçar às medidas adotadas pelas autoridades e orientando a população e os crentes em geral, a fazerem a sua parte.

Objetivamente

  • Procuramos ser cautelosos desde o princípio, buscando obedecer fielmente os decretos por parte do Governo. Colocamos uma faixa na frente do templo avisando a população que em cooperação com o governo estávamos com as portas fechadas;
  •  A conscientização foi e tem sido a ferramenta mais utilizada desde o princípio, depois da oração é claro;
  •  Buscamos não inovar nas práticas eclesiásticas (Ceias, Assembleias administrativas, mudanças no sistema de recebimento de membros, etc.), ou seja, não mudamos nada que pudesse contrariar a nossa eclesiologia ou teologia, pois sabemos que a pandemia vai passar, os princípios não;
  • Passamos realizar reuniões online, quase que semanais com a liderança da igreja e gradativamente fomos espaçando os encontros;
  • Congelamos o orçamento e a liberação de verbas deixou de ser automática, precisando da autorização da Divisão de Finanças, dependendo do valor;
  • Aproveitamos o que já tínhamos em funcionamento no tocante aos cultos online. Porém, initialmente com o empréstimo de equipamentos (computador, câmera de vídeo e luzes) iniciamos um novo momento até que pudéssemos buscar treinamento e comprar nossos equipamentos (evitamos fazer dívidas). Cautela e informação foram pontos chaves;
  • As decisões a princípio, passaram a ser mais centralizadas no conselho de Líderes (Pastores, líderes de ministérios e divisões, diáconos e diretoria da igreja), porém no segundo semestre de 2020, iniciamos os cultos presenciais e retomamos as assembleias após os cultos;
  • Os congressos e retiros agendados foram transformados em programas ao vivo pelo Youtube, sendo aproveitados os preletores anteriormente convidados;
  • Mantivemos as campanhas de levantamento de ofertas para Missões (Estaduais, Nacionais e Mundiais) e, em todas ultrapassamos os alvos estabelecidos;
  • A Diretoria e os demais cargos eleitos para o ano de 2020, tiveram seus mandatos prorrogados até o final de 2021.

Durante a pandemia pudemos ver o quanto Deus é bom e fiel, Ele supre todas as nossas necessidades.

Para Reflexão e Discussão

  1. O artigo compartilha sobre um aumento nas doações, apesar dos desafios econômicos decorrentes do COVID-19. Você sentiu um chamado para uma maior generosidade durante esta temporada e como você respondeu?
  2. A igreja apresentada no artigo considera o WhatsApp uma ferramenta útil para se conectar com sua comunidade. Qual tecnologia foi mais útil para sua comunidade? Existem outras ferramentas que você está pesquisando para implementar a longo prazo?
  3. A igreja procurou permanecer fiel à sua teologia e eclesiologia. Como você conseguiu se manter firme nessas áreas?

Appreciation

Appreciation

BWA General Council Resolution 2003.6

The General Council of the Baptist World Alliance, meeting in Rio de Janeiro, Brazil, July 7-12, 2003:

NOTES with appreciation the willingness of Korean Baptists to host the 2003 meeting of the General Council of the Baptist World Alliance and looks forward to meeting in Seoul in 2004;

OFFERS sincere thanks to the Baptist Convention of Brazil, its president, Nilson do Amaral Fanini and General Secretary, Socrates Oliverie de Souza, for their invitation to meet in Brazil when a change of venue from Seoul, Korea became necessary;

EXPRESSES gratitude to First Baptist Church, Rio de Janeiro, its pastor Fausto de Vasconcelos and to First Baptist Church, Niteroi and its pastor Nilson do Amaral Fanini for their warm hospitality in hosting General Council events in their respective churches;

REJOICES in the contribution to General Council worship made by the choirs of Libertad Baptist Church, Sao Paulo and First Baptist Church, Niteroi:

COMMENDS President Billy Kim, General Secretary Denton Lotz and the BWA Staff for making the General Council meeting a success despite the late venue change.

CALLS upon the churches of the Baptist World Alliance to pray for the countries of Latin America as they struggle with poverty, violence, and political and economic instabilities.

Citations

Original Source Bibliography: Lotz, Denton, editor. Baptist World Alliance 2003 Yearbook: Minutes of the General Council Meeting and Directory. Falls Church, VA: Baptist World Alliance, 2003.

Original Source Footnote/Endnote: Denton Lotz, ed., Baptist World Alliance 2003 Yearbook: Minutes of the General Council Meeting and Directory (Falls Church, VA: Baptist World Alliance, 2003), pp. 89-90.

Online Document Full Citation: BWA General Council Resolution 2003.6 Appreciation; https://o7e.4a3.myftpupload.com/resolutions.

In-text Online Document Citation: (BWA General Council Resolution 2003.6).